Se no filme ganhador do Oscar do ano passado, os responsáveis por desarmar explosivos usavam um belo traje protetor para realizar seu árduo trabalho, hoje, fora da ficção, vemos um país desprovido de qualquer armadura tentando realizar a mesma difícil tarefa de neutralizar uma bomba. Uma das grandes.
Lula, nosso presidente, esteve esta semana assinando um acordo junto a Irã e Turquia, compactuando para com uma válvula de escape na questão de nuclearização da nação iraniana. O Irã, para quem não sabe, criou um projeto de enriquecimento de urânio, que acarretou em várias sanções internacionais e a convivência com a constante ameaça de mais delas, tudo por conta do temor internacional de uma bomba atômica.
Através do acordo, Turquia e Brasil tentam limitar as sanções contra Irã, algo que a maioria das potências não concordam. Com razão, o governo do Irã tem um passado sujo demais para ter tal credito e mesmo ele concordando em enviar urânio para ser enriquecido em 20% (longe dos 95% de uma Enola Gay) na Turquia, o país continua com a idéia de nuclearizar também em seu território, dificultando negociações.
Apesar de parecer ter pouco resultado prático a atitude de Lula, o impacto publicitário foi desproporcional. Uma passagem rápida pelas principais News do mundo dá um panorama de quão bem recebido foi o ato do presidente brasileiro: “Muitos disseram que eles iriam falhar. Ao invés disso, os dois anunciaram o triunfo na segunda-feira 17 maio, apertando as mãos com Mahmoud Ahmadinejad, presidente iraniano.” diz economist.com, “Estrela do brasileiro Lula brilha com acordo iraniano” anuncia o Associated Press, “A China saudou o plano de troca de combustível nuclear que o Irã anunciou após reunião com o Brasil e a Turquia” diz Reuters.
A crítica positiva, porém, parece ser temporária, como a própria cooperação iraniana. Todavia, pode durar até a vindoura eleição presidencial deste ano, que se Dilma ganhar, será pela pura publicidade do companheiro Lula. Publicidade esta que certamente fora o forte da carreira do presidente, mas não a confunda com forte diplomacia, até porque Luis Inácio perdera a maioria das apostas, foram poucos resultados para muitos apertos de mão.
Posso pecar em dizer, mas acredito, na minha humilde opinião, que Lula agora torce para que haja sanções. Claro! Com as sanções, se Irã construir uma bomba será por causa delas, se não construir, ótimo, o Brasil fez sua parte. Deste ponto de vista, caros, acabo enxergando a intervenção brasileira no Irã como enxergo o premiado filme do título: Apesar de falar sobre fatos reais sérios, não passa de ficção, entretenimento.
quarta-feira, 19 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Para se pensar!!!
Postado por
Sandro Dantas
Recebi por e-mail hoje este texto. Gostei, e então resolvi postar aqui...
O texto que segue abaixo foi escrito para uma formatura da FAAP, por Nizan Guanaes, que foi o paraninfo da turma. Olhe só o que este publicitário escreveu! Deve ser por isso que é um dos melhores redatores do mundo e dono da DM9 (aquela que criou os bichinhos da Parmalat).
'Dizem que conselho só se dá a quem pede.
E, se vocês me convidaram para paraninfo, estou tentado a acreditar que tenho licença para dar alguns.
Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja aqui vão alguns, que julgo valiosos.
Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro.
Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor.
Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência.
Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha.
Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro.
Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro.
Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro.
E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham, porque são incapazes de sonhar.
E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma.
Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute.
Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido, tendo consciência de que cada homem foi feito para fazer história.
Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução.
Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar, sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.
Não use Rider, não dê férias a seus pés.
Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: 'eu não disse!', 'eu sabia!'.
Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa.
Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar.
Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam.
Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.
Eu digo : trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio (que é a morada do demônio) e constrói prodígios.
O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito o que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses, que trabalham de sol a sol, construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta.
Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.
Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo (que é mesmo o senhor da razão) vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão.
E isso se chama SUCESSO.'
O texto que segue abaixo foi escrito para uma formatura da FAAP, por Nizan Guanaes, que foi o paraninfo da turma. Olhe só o que este publicitário escreveu! Deve ser por isso que é um dos melhores redatores do mundo e dono da DM9 (aquela que criou os bichinhos da Parmalat).
'Dizem que conselho só se dá a quem pede.
E, se vocês me convidaram para paraninfo, estou tentado a acreditar que tenho licença para dar alguns.
Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja aqui vão alguns, que julgo valiosos.
Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro.
Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor.
Seja fascinado pelo realizar, que o dinheiro virá como conseqüência.
Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser nem um grande bandido, nem um grande canalha.
Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro.
Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro.
Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro.
E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham, porque são incapazes de sonhar.
E tudo que fica pronto na vida foi construído antes, na alma.
Colabore com seu biógrafo. Faça, erre, tente, falhe, lute.
Mas, por favor, não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido, tendo consciência de que cada homem foi feito para fazer história.
Que todo homem é um milagre e traz em si uma revolução.
Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar, sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.
Não use Rider, não dê férias a seus pés.
Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: 'eu não disse!', 'eu sabia!'.
Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele faria, se fizesse alguma coisa.
Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa de bar.
Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falam.
Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.
Eu digo : trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 8 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio (que é a morada do demônio) e constrói prodígios.
O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito o que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses, que trabalham de sol a sol, construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta.
Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.
Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo (que é mesmo o senhor da razão) vai bendizer o fruto do seu esforço, e só o trabalho lhe leva a conhecer pessoas e mundos que os acomodados não conhecerão.
E isso se chama SUCESSO.'
quarta-feira, 28 de abril de 2010
Administração Pública e Marasmo
Postado por
Sandro Dantas
I – Da parte sensata.
Hoje, tive a felicidade de poder ler a Carta do IBRE, carta escrita por economistas da FGV que apresenta dois mitos das contas públicas brasileiras (leia aqui). Um deles é o de que a redução de despesas de expediente poderia diminuir significativamente as despesas públicas. O outro é o de que o responsável, quase totalmente, pelo fraco investimento brasileiro é a pouca aplicação de recursos.
O 1° fora desmentido facilmente ao se apresentar a participação de cada componente nos gastos públicos brasileiros. A participação do Custo Restrito, que engloba os valores de despesas de escritório e viagens, material de consumo e serviços de consultoria, entre 1999 a 2009, caiu de 2,1% do PIB para 1,8%, sendo que, a máquina do governo não funcionaria com menos de 1% investido neste setor.
O 2° e mais emblemático, pode ser considerado em partes real. É verossímil que os gastos correntes (despesas geralmente mensais, vide relatório) vêm engrossando sua fatia no PIB, como também é verossímil o fato de que os recursos gastos em investimentos públicos vêm afinando sua parcela, porém, estas são só duas partes de um quebra-cabeça complicado. Um dos principais agravantes apresentados neste relatório para o problema, para alguns uma surpresa, é a má administração pública, que freia a liberação de verbas e estagna o processo.
II – Da psicose do autor
E mais uma vez chegamos ao mesmo buraco. Cultura. Infelizmente, a inapetência dos trabalhadores públicos é o resultado de uma sociedade que busca esforçar-se o mínimo possível para qualquer ação. A afirmação é cômica, afinal esta sempre foi à maior meta humana: Conseguir o máximo com o mínimo de esforço possível. Claro, nos tempos em que a produção de qualquer coisa era rústica e de extrema dificuldade, nos tempos em que trabalhar (trabalhar mesmo!) era necessário para continuar a viver, esta meta fazia todo sentido. Mas e hoje em dia? Nestes tempos onde tudo é produzido em escala desnecessária para que sejam saciados os bolsos dos “grandes homens” de nossa economia? Nestes tempos onde temos a obrigação de estar no ambiente criado para o trabalho, mas não a obrigação de trabalhar?
O mundo mudou, mas nossa meta não. Estamos em um trem desgovernado, sem freios. Um trem que atingiu a velocidade que necessitava, mas que não para de acelerar. Um trem controlado por maquinistas que já não se importam com os passageiros nem com os trilhos. E o mais triste, um trem cujos passageiros já não sabem ou fingem não saber onde querem desembarcar.
Talvez seja a hora de mudar o rumo deste trem...
Outras Frequências (Engenheiros do Hawaii)
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
o caminho mais curto, produto que rende mais
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
um tiro certeiro, modelo que vende mais
mas nós dançamos no silêncio
choramos no carnaval
não vemos graça nas gracinhas da TV
morremos de rir no horário eleitoral
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
sem sair do sofá, deixar a Ferrari pra trás
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
o milésimo gol sentado na mesa de um bar
mas nós vibramos em outra freqüência
sabemos que não é bem assim
se fosse fácil achar o caminho das pedras
tantas pedras no caminho não seria ruim
mas nós vibramos em outra freqüência
sabemos que não é bem assim
se fosse fácil achar o caminho das pedras
tantas pedras no caminho não seria ruim
seria mais fácil fazer como todo mundo faz...
Hoje, tive a felicidade de poder ler a Carta do IBRE, carta escrita por economistas da FGV que apresenta dois mitos das contas públicas brasileiras (leia aqui). Um deles é o de que a redução de despesas de expediente poderia diminuir significativamente as despesas públicas. O outro é o de que o responsável, quase totalmente, pelo fraco investimento brasileiro é a pouca aplicação de recursos.
O 1° fora desmentido facilmente ao se apresentar a participação de cada componente nos gastos públicos brasileiros. A participação do Custo Restrito, que engloba os valores de despesas de escritório e viagens, material de consumo e serviços de consultoria, entre 1999 a 2009, caiu de 2,1% do PIB para 1,8%, sendo que, a máquina do governo não funcionaria com menos de 1% investido neste setor.
O 2° e mais emblemático, pode ser considerado em partes real. É verossímil que os gastos correntes (despesas geralmente mensais, vide relatório) vêm engrossando sua fatia no PIB, como também é verossímil o fato de que os recursos gastos em investimentos públicos vêm afinando sua parcela, porém, estas são só duas partes de um quebra-cabeça complicado. Um dos principais agravantes apresentados neste relatório para o problema, para alguns uma surpresa, é a má administração pública, que freia a liberação de verbas e estagna o processo.
II – Da psicose do autor
E mais uma vez chegamos ao mesmo buraco. Cultura. Infelizmente, a inapetência dos trabalhadores públicos é o resultado de uma sociedade que busca esforçar-se o mínimo possível para qualquer ação. A afirmação é cômica, afinal esta sempre foi à maior meta humana: Conseguir o máximo com o mínimo de esforço possível. Claro, nos tempos em que a produção de qualquer coisa era rústica e de extrema dificuldade, nos tempos em que trabalhar (trabalhar mesmo!) era necessário para continuar a viver, esta meta fazia todo sentido. Mas e hoje em dia? Nestes tempos onde tudo é produzido em escala desnecessária para que sejam saciados os bolsos dos “grandes homens” de nossa economia? Nestes tempos onde temos a obrigação de estar no ambiente criado para o trabalho, mas não a obrigação de trabalhar?
O mundo mudou, mas nossa meta não. Estamos em um trem desgovernado, sem freios. Um trem que atingiu a velocidade que necessitava, mas que não para de acelerar. Um trem controlado por maquinistas que já não se importam com os passageiros nem com os trilhos. E o mais triste, um trem cujos passageiros já não sabem ou fingem não saber onde querem desembarcar.
Talvez seja a hora de mudar o rumo deste trem...
Outras Frequências (Engenheiros do Hawaii)
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
o caminho mais curto, produto que rende mais
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
um tiro certeiro, modelo que vende mais
mas nós dançamos no silêncio
choramos no carnaval
não vemos graça nas gracinhas da TV
morremos de rir no horário eleitoral
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
sem sair do sofá, deixar a Ferrari pra trás
seria mais fácil fazer como todo mundo faz
o milésimo gol sentado na mesa de um bar
mas nós vibramos em outra freqüência
sabemos que não é bem assim
se fosse fácil achar o caminho das pedras
tantas pedras no caminho não seria ruim
mas nós vibramos em outra freqüência
sabemos que não é bem assim
se fosse fácil achar o caminho das pedras
tantas pedras no caminho não seria ruim
seria mais fácil fazer como todo mundo faz...
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Lei Seca por um Legislativo Embriagado
Postado por
Sandro Dantas
Não é de hoje que nossa legislação ganhou um panorama cômico, nosso passado está repleto de redundâncias e paradoxos legais. A legislação, que deveria ser auxiliar da ética e do bom senso, tenta, inutilmente, colocar em suas páginas toda e qualquer circunstância possível, para que assim, nos amparemos fiel e cegamente no que é regrado e não mais costumeiro. Porém a infindável metamorfose humana torna a sociedade imune às previsões e o que deveria nos ditar a vida torna-se algo ultrapassado e não condizente com a realidade.
Hoje, assistindo o jornal local em meu horário de almoço, deparei-me com uma cena infame, porém, comum. Uma reportagem dizia que um homem visivelmente embriagado, fora levado à delegacia pela polícia, pois estava dirigindo em tais condições. Ao chegar lá, o homem recusou-se a fazer o teste do bafômetro e ainda ofendeu a delegada. Resultado: Foi liberado sem pagar fiança.
Justificativas dos profissionais perante a recusa do exame: O homem tem todo o direito de recusar-se a fazer o teste do bafômetro, pois a Legislação (olha ela aí gente) diz que o indivíduo é livre de fornecer provas contra si mesmo (é mole?). Mas o homem havia ofendido a delegada, isto não seria plausível de punição (ou reabilitação, como os humanistas desvairados preferem)? Não! Pois o homem estava visivelmente embriagado, não era responsável por seus atos! Mas se ele estava visivelmente embriagado, por que não o prenderam ou multaram ou fizeram qualquer coisa por dirigir assim? Simples, não tínhamos provas técnicas e a legislação (hunf!) diz que precisamos ter exatas as quantidades de álcool no sangue do indivíduo para tomarmos atitude. Conclusão: !?
Nisto, a confusa, paradoxal, redundante e inexpressiva lei, torna-se motivo de vergonha e chacota. Antigamente ao menos, precisava-se de bons advogados para encontrar os pontos fracos da cega justiça, hoje em dia, qualquer cidadão (merecedor ou não de tal nomenclatura) leigo em direito positivo burla-a “legalmente”.
A malandragem reina de um lado da lei enquanto a omissão reina do outro. E no meio de tantas qualidades não sobra espaço para o que hoje é virtude rara, mas que deveria ser obrigação: honestidade.
Hoje, assistindo o jornal local em meu horário de almoço, deparei-me com uma cena infame, porém, comum. Uma reportagem dizia que um homem visivelmente embriagado, fora levado à delegacia pela polícia, pois estava dirigindo em tais condições. Ao chegar lá, o homem recusou-se a fazer o teste do bafômetro e ainda ofendeu a delegada. Resultado: Foi liberado sem pagar fiança.
Justificativas dos profissionais perante a recusa do exame: O homem tem todo o direito de recusar-se a fazer o teste do bafômetro, pois a Legislação (olha ela aí gente) diz que o indivíduo é livre de fornecer provas contra si mesmo (é mole?). Mas o homem havia ofendido a delegada, isto não seria plausível de punição (ou reabilitação, como os humanistas desvairados preferem)? Não! Pois o homem estava visivelmente embriagado, não era responsável por seus atos! Mas se ele estava visivelmente embriagado, por que não o prenderam ou multaram ou fizeram qualquer coisa por dirigir assim? Simples, não tínhamos provas técnicas e a legislação (hunf!) diz que precisamos ter exatas as quantidades de álcool no sangue do indivíduo para tomarmos atitude. Conclusão: !?
Nisto, a confusa, paradoxal, redundante e inexpressiva lei, torna-se motivo de vergonha e chacota. Antigamente ao menos, precisava-se de bons advogados para encontrar os pontos fracos da cega justiça, hoje em dia, qualquer cidadão (merecedor ou não de tal nomenclatura) leigo em direito positivo burla-a “legalmente”.
A malandragem reina de um lado da lei enquanto a omissão reina do outro. E no meio de tantas qualidades não sobra espaço para o que hoje é virtude rara, mas que deveria ser obrigação: honestidade.
Brasília e a música nacional
Postado por
Sandro Dantas
Interessantíssima entrevista da UOL com Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial:
"Ser criança em Brasília era estar no paraíso", confessa Dinho Ouro Preto
Cidade roqueira
"Ser criança em Brasília era estar no paraíso", confessa Dinho Ouro Preto
Dinho Ouro Preto
Especial para o UOL
Brasília faz 50 anos agora em Abril. O Renato Russo faria também 50 em Março. As duas datas são importantíssimas pra mim, e estão interligadas.
Eu morei em Brasília em duas épocas distintas da minha vida: a primeira, dos dez aos treze, e a segunda, dos dezesseis aos vinte. Pode parecer pouco, mas tudo o que eu sou hoje deriva, de uma forma ou de outra, desses anos.
O primeiro período, foi minha transição da infância à adolescência, uma época um tanto confusa pra todos nós. Quando se é criança em Brasília se tem a impressão de estar no paraíso. Passávamos o dia na rua jogando bola e andando de skate. Eu ia a pé pra escola e tinha uma sensação de absoluta tranquilidade e segurança. Medo e violência ainda não faziam parte do meu vocabulário. Na minha inocência, a cidade me parecia um lugar perfeito, sem defeitos, no meio do cerrado e longe de qualquer problema.
Aos dez, eu conheci o Dado Villalobos, que se tornou meu melhor amigo. Aliás, continua sendo. Aos doze, conheço o Herbert Vianna, o Bi Ribeiro e seu irmão, o Pedro. Até hoje, todos estão entre meus melhores amigos. Através deles, eu comecei a ouvir rock. No começo eu ouvia o que eles ouviam, Led Zeppelin, Jimi Hendrix, entre outros.
Compro meu primeiro disco: Jimi Hendrix tocando Cream. Lembro da correria às lojas quando o Led Zeppelin lançou o Presence. Lembro de quando o Herbert ganhou sua primeira guitarra importada. Juntou um monte de gente embaixo do bloco porque nunca tínhamos visto uma Gibson.
Aos poucos fui me afastando do gosto deles, e, embora ainda tivéssemos muita afinidade musical, fui me interessando por bandas que, pra eles, eram abomináveis, como AC/DC, Kiss e Queen. Lentamente rock ia se tornando a coisa mais importante da minha vida. Eu achava que quanto mais bandas eu conhecesse, mais bacana eu seria. Eu fazia uma competição com meu irmão pra ver quem conseguia completar o alfabeto inteiro com nomes de bandas. E por incrível que pareça conseguíamos.
Brasília, mesmo sendo a capital do país, ainda era uma cidade do interior, provinciana e isolada. O fato de termos conseguido informações musicais assim em Brasília , muito antes da internet, nos anos setenta, em plena ditadura, foi um feito surpreendente, que só foi alcançado por nos interessarmos por música com um furor religioso.
Aos treze eu passei alguns anos fora do país com meus pais e voltei aos dezesseis. Reencontro meus amigos, e os encho de histórias, dos shows que eu tinha visto, só pra saborear sua inveja.
Logo depois da minha volta, a caminho de casa, absolutamente por acaso, eu dou de cara com uma banda tocando numa calçada em frente a uma lanchonete conhecida por envenenar seus clientes.
Os caras pareciam ter descido de uma nave espacial. Cabelos coloridos, roupas rasgadas, coleiras e alfinetes por todo lado. Eu não conseguia entender uma só palavra do que o sujeito cantava; todos os instrumento e a voz estavam ligados em um só amplificador. Mas não importava, eles transpiravam energia, atitude e carisma. A banda era o Aborto Elétrico com o Renato Russo (naquela época ainda Manfredini) nos vocais, e o Fê e o Flavio Lemos na bateria e baixo respectivamente. A partir desse momento, minha vida nunca mais foi a mesma.
Cidade roqueira
Virou uma questão central nas nossas vidas reencontrarmos aquelas pessoas. Percebemos que a cidade inteira, inclusive nosso bloco, estava pichado com um AE. Começamos a prestar atenção em cartazes colados pelos muros até descobrirmos onde seria o próximo show. Finalmente, após uma exaustiva investigação, descobrimos que a apresentação seria num lugar chamado Cafofo. E lá fomos nós, eu, o Dado e o Pedro...
O Cafofo merecia o nome que tinha, era uma lugar de última. Na verdade era um boteco e o show era no porão. Descemos e nos deparamos com umas doze pessoas, todas vestidas a caráter, uma banda tocando, o Aborto Elétrico assistindo, mas o melhor de tudo: garotas. E ainda por cima roqueiras, aliás punks. O porão era um inferno, mas estávamos no lugar certo na hora certa.
É preciso uma pequena explicação: àquela altura Brasília já tava bastante tediosa pra nós adolescentes com hormônios saindo pelas orelhas. Mas, embora nosso interesse e entusiasmo pelos punks fosse óbvio, ninguém nos dirigia a palavra. Ficou claro que aquilo era um clube exclusivo e, para entrar, sabe lá Deus o teríamos que fazer. No entanto, nossa persistência foi intensa, fomos a todos os shows, não importa onde eram, até que lá pelas tantas, não dava mais pra fingir que não estávamos lá. As primeiras pessoas que tiveram piedade o suficiente pra se digerirem a nós foram as meninas, traição suprema, que deve ter enfurecido o povo das bandas. Eu digo bandas porque eram duas; além do Aborto, havia também o Blitz 64. Por meio das meninas, somos convidados depois do show a ir pra uma "quebrada". Não tínhamos a mais remota idéia do que se tratava, mas como a sorte não passa sempre na sua frente, dissemos que sim, e fingimos que sabíamos do que eles estavam falando.
Quebradas nada mais eram do que lugares isolados, ermos, longe de tudo e de todos, a beira do lago, onde paravam o único carro que tinham e colocavam o som no máximo, acendiam os faróis e baseados; bebia-se Sangue de Boi no gargalo e pronto, a festinha tava armada.
Duas coisas fundamentais aconteceram naquela noite. Primeiro, para minha surpresa o Renato se dirigiu a mim. Ele vira e me pergunta, como se fosse a coisa mais normal do mundo, se eu gostava de ler. Respondi que sim ao que se seguiu com uma conversa sobre Kurt Vonnegut, Salinger, Aldous Huxley e até Camus e Dostoievski. Tive que espremer meu cérebro pra acompanhar a verborragia daquele cara, simultaneamente culto e tímido. A segunda coisa fundamental da noite, foi meu primeiro contato mais intenso e íntimo com o punk rock.
Pode parecer pouco, mas as duas coisas somadas, Renato e o punk, fizeram minha vida tomar um rumo inesperado. À noite, eu não disse nada aos meus pais. Eu preferia que eles pensassem que eu estava planejando algo potencialmente destrutivo e que jamais soubessem que eu tinha passado a noite conversando sobre literatura. Entrei em casa mudo com cara de conspirador, não cumprimentei ninguém, e me tranquei no meu quarto. Dormi profundamente, sonhando com o próximo encontro que prometia uma galáxia de novas possibilidades para minha tediosa existência.
Pouco depois, eu comecei a namorar a irmã do Fê e do Flavio, uma menina linda de morrer que, como eu, ainda ouvia as bandas antigas. Mesmo tendo sido apresentado ao punk, eu achava aquilo tudo muito tosco, e me recusava a ser convertido. Eles eram divertidos e tudo, mas, musicalmente pra mim, aquilo era um desastre. Namorando a Helena, além da sorte grande de namorar a menina mais bonita da turma, ganhei o privilégio de poder frequentar os ensaios do Aborto que eram na casa do Fê.
A partir de então, finalmente eu entendi o que o Renato estava dizendo. E, quando isso aconteceu, parecia que o céu tinha aberto, e um raio de luz iluminado meu rosto, e Deus dito... bom, não sei exatamente o quê, mas algo importante. Finalmente eu ouvi rock brasileiro bem escrito. E, mesmo sem ainda estar convencido do valor do punk, instantaneamente virei fã incondicional do Renato, o que continua inalterado até hoje.
Meu fascínio por sua música me levou a me aproximar dele, e finalmente, um dia, a frequentar sua casa. A Helena, minha namorada, já era amiga dele e, por meio dela, tive acesso ao pequeno circulo de amigos mais próximos.
A casa dele era uma casa comum de classe média, uma mãe e uma irmã simpatissíssimas e o pai que parecia não achar tanta graça naquela gente frrequantando seu lar. O quarto do Renato, objeto de nossa peregrinação, era um autêntico santuário. Rock, cinema e livros. Pilhas e mais pilhas de discos e revistas. Passávamos a tarde inteira ouvindo som, lendo sobre o que as bandas aprontavam, e vendo fotos dos palcos, músicos, suas roupas e suas festas. La Hacienda, CBGB's e 100 Club, todos lugares que pareciam cenários, algo quase irreal, bom demais pra ser verdade. Com fotos dos Ramones festejando, do Sid Vicious fora de si e do Ian Curtis em depressão.
O Renato era um leitor ávido e tinha fascínio especial por biografias, principalmente de rock e cinema. Conhecia cada detalhe da vida de atores e músicos. De Bob Dylan ao Clark Gable, ele sabia de tudo: gosto musical, preferência sexual, prato predileto, roupa favorita, enfim tudo. E sabia de pequenas anedotas, histórias de amor, aventuras extraconjugais, brigas em bares e prisões. Frequentávamos juntos mostras de cinema; víamos a nouvelle vague, os expressionistas alemães, e os clássicos italianos. Acho que nunca mais vivi um momento tão intelectualizado quanto esse, aos dezessete anos.
E tudo isso sem falar em política. Embora o regime militar ainda estivesse oficialmente de pé, a impressão era que ele estava em estado terminal e não seria mais uma ameaça para nós. Então, aterrorizávamos nossos pais saindo para a rua com camisetas com a foice e o martelo (mesmo sem levar Marx muito a sério) só pra nos divertirmos à custa da certeza deles que seríamos presos. Naquele momento líamos Bakunin e, por mais inacreditável que pareça, levávamos a anarquia a sério.
As letras do Renato eram ácidas, corrosivas e de uma provocação deliberada. Ele era chamado regularmente ao ministério da Justiça pra prestar esclarecimentos, coisa que ele nunca fez, e no entanto nunca houve uma reação do regime. Suponho que naquele momento o Figueiredo já estava mais preocupado com seus cavalos. De qualquer modo, nós nos sentíamos profundamente subversivos só de ir aos shows. Aquilo parecia uma afronta aos militares, um ato de coragem que um dia seria lembrado nos livros de história.
A adolescência vem com uma dose de arrogância e ingenuidade. Naquela época, o Renato devia ter uns vinte anos e já tinha escrito “Que Pais é Esse”, “Geração Coca Cola”, “Química”, “Tédio”, “Veraneio Vascaína” e “Fátima” - as últimas duas com o Flavio Lemos. Aos poucos, outras pessoas foram percebendo que não se tratava só de um músico talentoso. A turma começou a aumentar, até que em determinado momento não sabíamos mais o nome de todos. Havia uma hierarquia que era estabelecida por ordem de chegada, portanto, o Renato e o Fê, que tinham fundado o Aborto dando início a tudo, tinham o status de líderes. Outros poucos reivindicam importância equivalente, por inveja ou por rivalidade. Mas pra mim, tudo isso era irrelevante. O Renato, aos meus olhos, pairava acima de todos como um guru indiano levitando.
Acho que essa historinha está ficando meio longa, então vou dar uma resumida. O mote do punk era "faça você mesmo", o que era levado ao pé da letra pelos recém chegados e então bandas pipocaram pra todo lado. Todas com nomes engraçadíssimos, como Dado e o Reino Animal, Os Vigaristas de Istambul e o Anti-Ontem. Se você sacudisse uma árvore, caia um guitarrista.
A medida que mais bandas surgiam, eu tenho a impressão que o Renato começava a achar aquilo tudo um lugar comum. Acho que ele queria ser algo a parte. E principalmente ele queria se fazer ouvir e entender, como se ele soubesse que um dia teria a atenção de uma geração inteira. Então, para minha infelicidade numa bela tarde, sem mais nem menos, houve um dia de luto na turma: o Renato sai do Aborto. Ninguém sabia que aquilo era só o fim do começo e que muito mais viria pela frente. Mas isso tudo é outra história.
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